Durante décadas, o imaginário popular associou as cidades da antiga União Soviética a enormes blocos de concreto, arquitetura repetitiva e paisagens urbanas consideradas monótonas pelos padrões ocidentais. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela um paradoxo interessante: muitos dos princípios urbanísticos desenvolvidos e aplicados em larga escala pelos soviéticos são exatamente aqueles que hoje aparecem como diferenciais de empreendimentos de alto padrão e bairros planejados no Brasil.
Enquanto incorporadoras modernas anunciam conceitos como "bairro caminhável", "cidade de 15 minutos", "uso misto", "mobilidade sustentável" e "integração entre moradia, comércio e lazer", parte dessas ideias já fazia parte do planejamento urbano soviético há mais de meio século.
Um dos pilares do urbanismo soviético era o chamado microdistrito, uma unidade urbana planejada para atender às necessidades cotidianas dos moradores sem exigir longos deslocamentos.
A proposta era simples: organizar bairros onde escolas, creches, áreas esportivas, parques, comércio básico e transporte público estivessem acessíveis a pé. O objetivo era reduzir a dependência de veículos particulares e criar uma estrutura urbana funcional para milhares de habitantes.
Na prática, muitos desses bairros ofereciam:
São características que hoje aparecem em apresentações comerciais de inúmeros empreendimentos imobiliários considerados inovadores.
A diferença fundamental está na finalidade.
Na União Soviética, esses conceitos eram aplicados como política pública de planejamento urbano. O foco principal era a funcionalidade coletiva, buscando oferecer infraestrutura e serviços para toda a população urbana.
No Brasil contemporâneo, princípios semelhantes frequentemente aparecem em empreendimentos privados, condomínios planejados e bairros de alto padrão. O que antes era concebido como um modelo urbano para grandes massas tornou-se um diferencial de mercado destinado a um público específico.
Em outras palavras, características que deveriam fazer parte da cidade como um todo passaram a ser comercializadas como produtos imobiliários.
É importante separar urbanismo de arquitetura.
A arquitetura soviética residencial recebeu críticas por sua repetição excessiva, padronização e limitada diversidade estética. A necessidade de construir milhões de moradias rapidamente levou à adoção de sistemas industrializados e soluções arquitetônicas bastante uniformes.
Por outro lado, muitos dos conceitos urbanísticos utilizados nesses conjuntos continuam sendo estudados e revisitados por especialistas ao redor do mundo.
A organização dos espaços públicos, a proximidade entre serviços, a valorização da caminhada e a integração com o transporte coletivo são temas centrais das discussões urbanas contemporâneas.
Nos últimos anos, expressões como "cidade compacta", "cidade de 15 minutos", "desenvolvimento orientado ao transporte" e "bairros completos" ganharam destaque em congressos, universidades e projetos urbanos.
Embora apresentadas como respostas aos desafios das cidades modernas, muitas dessas propostas dialogam diretamente com conceitos que já estavam presentes em diversos planejamentos urbanos soviéticos do século XX.
Isso não significa idealizar ou romantizar o modelo soviético. Havia problemas reais relacionados à qualidade construtiva, à burocracia estatal e à falta de diversidade arquitetônica. Porém, também seria um erro ignorar contribuições urbanísticas que continuam relevantes.
Talvez a grande questão seja compreender por que elementos considerados essenciais para a qualidade de vida urbana passaram a ser tratados como diferenciais de luxo.
Ter áreas verdes acessíveis, poder caminhar até uma escola, utilizar transporte público eficiente e encontrar serviços próximos à residência não deveria ser um privilégio. Deveria ser parte da estrutura básica de qualquer cidade bem planejada.
O debate contemporâneo sobre urbanismo sustentável pode se beneficiar ao revisitar experiências históricas sem preconceitos ideológicos. Afinal, boas ideias urbanas não pertencem a sistemas políticos específicos. Elas pertencem às cidades e às pessoas que vivem nelas.
Ao observarmos o mercado imobiliário atual, percebemos uma ironia histórica interessante: muitos dos conceitos que hoje elevam o valor de um empreendimento já foram considerados componentes básicos de planejamento urbano em diversas cidades da antiga União Soviética.
Talvez o verdadeiro desafio do século XXI não seja inventar novos modelos urbanos, mas tornar acessíveis, para todos, os melhores princípios daqueles que já existiram.
JULIO MOREIRA
Arquiteto e Urbanista
Parabéns pelas matérias publicadas neste espaço. tem sido muito top ler.
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